HOMENAGEM

Mestre Flavio Habib Yunes e nosso clube

Academia (1)

Por: Anderson Chantal

Imagine nos dias de hoje no meio de dezenas de academias high tech um lugar que parece estar entre a década de cinqüenta e sessenta, onde até pouco tempo atrás a palavra tijolinho só se aplicava aos tijolos de suas paredes mal rebocadas, bicicletas e esteiras ergométricas não passaram por lá até pouco tempo, os únicos equipamentos “aeróbicos” eram cordas feitas de antigos cabos elétricos e varais que o pessoal usava para pular e se aquecer, muitas de suas anilhas foram forjadas há décadas atrás pelo próprio proprietário da academia, usando moldes de madeira e areia, onde o ferro fundido era derramado dando forma as anilhas sem marca, sem números, mas feitas por pessoas que queriam algum lugar para treinar, alias a historia do CHM começa na década de quarenta, quando um rapaz libanês franzino que trabalhava no mercado municipal de São Paulo queria ser tão forte quanto aqueles homens que via naquelas antigas revistas de halterofilismo da época, revistas da época que Arnold, Platz, Ferrigno e muitos outros não eram nem nascidos. Nessa época a única academia existente em São Paulo ficava no centro da cidade e seu funcionamento era apenas três vezes por semana e que quando chovia não tinha treino, pois ficava a céu aberto, os antigos equipamentos ficavam ao relento, sem contar que a distancia que ele tinha de percorrer para treinar era enorme e na época o meio de transporte era o bonde que nem sequer sonhava em passar perto da casa desse rapaz. Aos poucos ele foi fazendo a sua própria academia com equipamentos, alguns feitos por ele mesmo e outros por amigos e assim foi sendo forjada uma das mais antigas academias do Brasil, o Clube de Halteres Modelo, ou apenas CHM, cujo dono é o Senhor Flavio Habib Yunes, Professor de Educação física, Massagista, faixa preta em Jiu-jítsu e judô.

O clube de Halteres Modelo foi fundado em 01 de março de 1949 e era um local bem simples, uma masmorra, cheia de ferreiros, , um lugar que parecia mais um daqueles lugares onde os gladiadores eram treinados para os combates no coliseu, equipamentos rústicos com a pintura toda arranhada, muito peso livre, anilhas de todos os tipos e pesos imagináveis, um enorme tablado de madeira para os basistas e levantadores olímpicos treinarem, aliás havia no lugar várias barras olímpicas e muitas anilhas olímpicas, tudo muito coberto de pó de magnésio, uma atmosfera pesada, sem falar dos caras que estavam treinado lá,  digo caras e não atletas porque naquela época, musculação era para homens, mulheres faziam ballet, quando aparecia uma mulher na academia era para comunicar a morte de alguém, não que as mulheres não eram bem vindas na academia, é que o ambiente era muito pesado para uma mulher, voltando a falar do pessoal que treinavam lá, pessoas simples, com tatuagens muito rústicas enfeitando braços que pareciam feitos de pedra, gente treinando descalço ou de chinelo de dedo , pessoas fazendo supino com tanto peso que as barra envergavam, havia um nissei, Júlio que com seus 65 quilos de peso corporal fazia facilmente 170 quilos de supino sozinho sem nenhuma ajuda, um rapaz ao fundo no tablado fazendo 212,5 de agachamento, um outro fazendo barra tão concentrado que parecia uma máquina, eram tantas barras que você cansava só de olhar antes dele terminar, pessoas pulando corda durante minutos ou até horas, era tanta gente que mal dava para andar, a única conversa  que se ouvia por lá era relacionada com treino e motivação, que eram proferidas geralmente através de gritos, do tipo, vamos lá, mais repetições, não pare, continue, você pode mais, você consegue, isso não é peso pra você e etc.

Haviam vários senhores de idade com braços enormes, levantando pesos que fariam muitos desses paspalhos de academia de hoje vomitarem, tinha um cara que o pessoal chamava de B.A. que treinava tão lentamente que era possível ir ao banheiro e voltar e ele ainda estava fazendo a mesma série de rosca alternada e tudo isso sendo observado pelo Senhor Flavio, era assim que todos chamavam o  nosso mestre, Senhor Flavio, de repente surge um cara de quase 2 metros de altura, com a roupa em trapos, uma barba mal feita e muito pó de magnésio nas mãos, na sua frente uma barra olímpica com 100kg, esse cara de repente abaixa-se pega essa barra e com um grito como se fosse um urso levanta até a altura dos ombros e faz uma série de 8 repetições de desenvolvimento ou press militar, como vocês preferirem, e tudo isso de pé sem nenhum apoio, algo inimaginável nos dias de hoje, mas algo normal naquele lugar, esse monstro se chamava Betão, um monstro com os pesos, mas uma pessoa maravilhosa, aliás no meu primeiro treino foi ele que me ajudou, um tipo de braço direito do senhor Flavio, homens rústicos, quase ogros, mas com corações gigantescos, a exemplo do nosso mestre Flavio, um gigante de corpo e alma, um mestre em todos os sentidos, quantas lições aprendemos com o Sr. Flavio, o CHM era um lar para muitos de nós, e o senhor Flavio um pai, um amigo, tenho muito orgulho de dizer que tive como mestre o Professor Flavio Habib Yunes, e com o coração rasgado e meus olhos cheios de lagrimas me despeço de nosso mestre querido que nos deixa fisicamente, mas que nunca sairá de nossas mentes e corações, e tudo que sou hoje agradeço a ele, que me deu um sentido na vida, como aluno, atleta e funcionário do CHM, e em nome dos mais de 5.000 alunos que passaram pelo clube, muito obrigado mestre querido e amigo eterno.

CHM 010517b

Flavio Habib Yunes, era natural de Bragança Paulista (SP) e por quase 60 anos se dedicou ao esporte com muito amor, e fez de muitas vidas, vidas melhores.

Academia (7)

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