GENÉTICA E EXERCÍCIO

Será mesmo que a genética tem alguma relação com o desempenho na atividade física?

Genética 211013

Todo e qualquer resultado que se observa no organismo em função da prática de exercícios, seja no âmbito do desempenho ou do condicionamento físico, costuma ser atribuído à “genética” de um dado indivíduo. Na verdade, por “genética” entende-se um conjunto de características próprias que interage de forma única com o estímulo do treinamento. Essa informação é difundida já nos níveis iniciais da formação de profissionais ligados ao exercício, como educadores físicos. Do que se entende que não é preciso um grande conjunto de saberes prévios para que a questão da “genética e exercício” seja entendida.

Acontece, porém, que atribuir algo à genética e compreender como essa mesma genética é “modulada” pelo exercício são coisas muito, mas muito mesmo, diferentes. Nossa experiência didático-acadêmica tem demonstrado que quando há lacunas numa dada área do conhecimento cria-se um ambiente propício para especulação. Especulação essa, infelizmente, do pior tipo. Ainda é lugar comum ouvirmos que “indivíduos da raça negra” obtêm melhores resultados em determinadas modalidades esportivas em função de um determinado padrão de fibras musculares. Aos que acreditam nisso vale lembrar que o estudo sério da genética desmentiu, há tempos inclusive, o conceito de raça. Ou seja, asiáticos, africanos, europeus, americanos não constituem exemplares de raça diferentes, mas membros de uma mesma e única raça, a humana.

E qual assunto tem sido mais discutido ao longo dos anos, no âmbito da genética, que a questão da herança em relação aos tipos de fibras? Portadores de fibras rápidas seriam indiscutivelmente campeões de provas de força/potência/velocidade enquanto os portadores de fibras lentas seriam mais adequados às provas de longa duração. Tal tipo de raciocínio é na melhor das hipóteses ingênuo. Acredita-se, por exemplo, que os principais determinantes para provas de endurance são: consumo máximo de oxigênio, composição corporal, fatores bioquímicos, condição nutricional, termo regulação, tolerância e eficiência no exercício submáximo, traços psicológicos e fatores sociais. Já para os que hipervalorizam a hipertrofia muscular vale ressaltar que a seção transversa do músculo explica no máximo 50% da variabilidade da força entre indivíduos.

Outra crença errônea na área esportiva é a de que a genética seja utilizada rotineiramente no campo de estudos que se denomina “detecção de talentos”. É claro que há um conjunto de conhecimentos muito “sério” a serviço da detecção de talentos, entretanto, a seleção de genes candidatos (de modo simples aqueles envolvidos em determinados fatores de desempenho) e sua aplicabilidade ainda não pertence a esses conhecimentos ditos sérios. Primeiro precisamos descobrir como a variabilidade nos genes determina as diferentes respostas ao treinamento e como os genes interagem com o ambiente na determinação de tais respostas. Mesmo que um dia tenhamos essas informações todas, não podemos esquecer que a contribuição de cada gene é pequena ou no máximo modesta e que a maior parte dos tipos de desempenho é determinada por vários genes (veja a descrição dos fatores da performance de endurance citados acima). Assim, não é correto, muito menos prudente, acreditar que por meio de algum desses genes seja possível determinar um futuro campeão olímpico. Infelizmente, procedimentos não sérios como a dermatoglifia (supostamente a capacidade de determinar o desempenho pela impressão digital) perpetuam essa crença de que é possível determinar o desempenho humano por medidas simples. Aparentemente não aprendemos nada com a pseudociência da frenologia (propunha a possibilidade de identificar o caráter de uma pessoa pela conformação do crânio).

Finalmente não devemos esquecer que os próprios estudiosos da genética acreditam que a maior parte dos efeitos do treinamento não é atribuída à genética e sim a fatores não transmissíveis. Nesse sentido, a genética constitui-se um diferencial para indivíduos que procuram o desempenho máximo. Ao contrário, é muito comum assistirmos a acirrados debates em salas de musculação sobre o fato de alguns hipertrofiarem mais que outros devido à genética. Os que têm genética (como se alguém não a tivesse) seriam abençoados e os que não a tem deveriam simplesmente, desistir. Na realidade, o diferencial dado por um suposto conjunto privilegiado de genes começaria a ser observado não no início do treinamento, mas naqueles que continuam por anos, como atletas que treinam muitas vezes 8-12 anos, pelo menos, para atingirem seus melhores desempenhos. As mudanças observadas na academia para indivíduos que não são avançados, ou seja, possuem menos de um ano de treino de musculação (segundo a National Strenght and Conditioning Association – NSCA) seria nesse sentido tudo, menos exclusivamente resultado da genética privilegiada.

E por último, pensando em desempenho, não devemos nos esquecer que todo tipo de desempenho pode ser comprometido por três tipos de barreira: fisiológica, psicológica e biomecânica. Os conhecimentos sobre genética e exercício estão relacionados em sua esmagadora maioria (redundância proposital) em relação à primeira barreira. E o que sabemos nesse caso ainda está no começo. Quanto às duas outras barreiras e seus determinados genéticos sabemos menos ainda.

Por tudo isso, devemos ficar atentos às promessas de que a genética vai revolucionar o esporte ou a saúde. Certamente é uma área importante de estudos e que tem muito a contribuir. Entretanto, por contribuir deve-se entender somar um “pouquinho” ao já existente vasto campo de estudos do exercício e não vira-lo de cabeça para baixo.

Para finalizar gostaria de acrescentar uma frase que ouvi de um atleta um dia desses, (A genética é a desculpa do preguiçoso fracassado).

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